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  • Silvia Dotta

Quais são as cores do gelo na Antártica?

Azul! 

Essa é a resposta mais comum, mas há também o gelo verde, o gelo preto (escuro), o gelo rosa, o verde, o amarelo.


Gelo Azul, Patagônia, 2014. Ⓒ Dotta

Gelo Azul, Patagônia, 2014. Ⓒ Dotta

A coloração do gelo e da neve sofrem influência de inúmeros fatores: quantidade de ar que os compõem, incidência da luz, idade do gelo, tipo de matéria em seu interior: sedimentos rochosos, algas ou outros organismos.



Gelo Azul-Esverdeado, Antártica, 2018. Ⓒ Sílvia Dotta

O gelo, como a água, comporta-se como um filtro azul fraco, absorvendo a luz vermelha e laranja mais fortemente do que absorve a luz verde e azul. Quanto mais espesso for o gelo, mais azul ele parecerá, à medida que mais luz vermelha e laranja é absorvida.

Gelo Azul, Antártica, 2018. Ⓒ Sílvia Dotta

Blocos de gelo e geleiras podem conter grande quantidade de ar. A interface ar-gelo reflete a luz solar branca antes que ela tenha a chance de penetrar e ser absorvida.


Assim, a neve e a superfície das geleiras aparecem com uma cor branca brilhante. Todavia, alguma parte da luz penetra mais fundo na geleira onde grande parte do ar foi espremido para formar gelo, deixando apenas algumas bolhas de ar que refletem a luz de volta. Nesse ponto é onde a maior parte da absorção acontece. 


O resultado é uma dispersão profunda da luz azul dentro da geleira.  

Entretanto, quanto mais antigo o gelo, maior é a pressão da água sobre o ar em seu interior, dificultando a passagem da luz, e fazendo-o mais escuro, com uma aparência de vidro.

Gelo Preto, Antártica, 2018. Ⓒ Sílvia Dotta


Há relação das cores com as mudanças climáticas?


O gelo e a neve podem também servir de hábitat para microorganismos (algas e bactérias) cuja coloração irá tingir a superfície de grandes camadas de neve na Antártica, e podem ser da cor vermelha (red snow algae), verde ou amarelo (green snow algae) ou marrom (brown ice algae).


Um dos problemas causados pela coloração  da neve, dada pela proliferação de microorganismos em sua superfície, é a redução do albedo. Albedo  (brancura ou luz solar refletida, a partir de albus, branco) é a refletividade ou o poder de reflexão de uma superfície. O branco reflete mais luz, enquanto cores mais escuras absorvem luz. Quanto mais algas houver na neve, mais escura ela se torna e menos luz do sol ela reflete. O escurecimento da superfície da camada de neve é um dos responsáveis pelo degelo. Esse fenômeno ocupa um importante papel na mudança climática e no processo de derretimento do gelo.

Neve com algas vermelhas. Antártica, 2018. Ⓒ Sílvia Dotta

No Ártico, por exemplo, Lutz, S. e colaboradores (2016) descobriram que uma mesma espécie de alga foi responsável por causar a neve rosa. Durante os meses em que está quente na região, uma fina camada de água derretida se forma entre o gelo e a neve. A luz solar e a água são condições ideais para o cultivo das algas, que começam a proliferar. Isso cria uma espécie de efeito bola de neve: quanto mais gelo e neve derretem, mais algas se formam. Quanto mais algas se formam, mais luz solar absorvem, causando mais derretimento (Lutz, et al., 2016).


O fenômeno também pode ser observado em outras regiões polares do planeta e o seu estudo pode contribuir para o entendimento do degelo e das mudanças climáticas.


Referências

Lutz, S. et al. The biogeography of red snow microbiomes and their role in melting arctic glaciers. Nature Communications. Vol. 7. 22 jun.2016


Agradecimentos: agradeço à amiga Claudineia Lizieri por ter me inspirado a escrever esse texto. Clau, continuo na expectativa de escrevermos aquele artigo sobre as cores do gelo. 

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SUPPORT

 

InterAntar é um projeto desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa INTERA, na Universidade Federal do ABC.

Coordenação: Sílvia Dotta : Pesquisadores: Edson Pimentel, Fabiana Nunes, Juliana Braga, Roberta Maia : Colaboradores externos: Nossa rede de colaboradores é extensa e internacional, por isso seus nomes são citados nas produções em que colaboraram.

 Todos os direitos reservados. Contato: convergenciaxxi@gmail.com - Universidade Federal do ABC - Rua Abolição, s/n, bloco L, Lab. 119, CEP 09210-180, Santo André, SP - Brasil

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